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  • Foto do escritorSamuel Bueno

Como algo que aconteceu há milhões de anos influencia a atualidade?

Quantas coisas que nem sequer imaginamos podem ter acontecido há milhões de anos, na cidade onde moramos? Você já parou para pensar ou até mesmo pesquisar sobre isso? O planeta Terra passou por longos processos geológicos até a formação que conhecemos, os quais muitas das vezes desconhecemos ou não somos capazes de compreender totalmente.


Esses eventos do passado geológico são fundamentais para a compreensão das  mais diversas e complexas situações ambientais na atualidade. Questões essas que, se não analisadas, podem causar um grande prejuízo a todo um sistema natural. Para retratar a relação do passado com a atualidade, cita-se um exemplo.  


Em meados de 2023, a Prefeitura Municipal de Guarapuava, no estado do Paraná, anunciou o início das obras de revitalização na Av. Rubens Siqueira Ribas. Essa importante via liga o Distrito Sede com o Distrito Entre Rios, separados por uma grande variação geomorfológica e por um parque recreativo com beleza exuberante para fazer trilhas a pé ou de bicicleta. 


A finalidade do projeto é revitalizar a estrada, pois ela vem sendo impactada por inúmeros problemas urbanísticos e de infraestrutura — como deformação asfáltica, diversos buracos e incompatibilidade com o uso da estrada por carros e bicicletas, já que a ciclovia é estreita. Por que a compreensão dessa breve introdução é essencial? Bom, isso será esclarecido ao longo do artigo.


“Atividade Vulcânica? Na minha Cidade?” 


Estas perguntas foram parte da minha reação quando soube desse fato. Cerca de 127–137 Milhões de anos atrás, ocorreu uma das atividades vulcânicas de natureza continental mais relevantes de todo o planeta. Tal evento deu origem à Província Magmática do Paraná, ou Formação Serra-Geral, que se trata de uma formação geológica de rochas magmáticas ou vulcânicas.


Em 2017, a Professora Doutora Eliza B. Tratz publicou sua tese de Doutorado em Geografia. A pesquisa, intitulada “Geologia e Geomorfologia das Estruturas Circulares na Porção Central da Província Magmática Paraná-Etendeka”, apresenta a hipótese da existência de 12 estruturas vulcânicas na região do Município de Guarapuava. 


Justifica-se essa hipótese por dois principais motivos, que inclusive intitulam a tese: “Geologia” e  “Geomorfologia”. Antes de falarmos das rochas, que irão dar sustento à hipótese, precisamos entender a geomorfologia da região. 


Como havia sido dito, constataram-se 12 estruturas circulares, com características anelares, denominadas paleocaldeiras basálticas, encontradas tipicamente em vulcões de classificação “em escudos”. A Dr. Eliza desenvolveu modelos de elevação de terreno de todas as estruturas que ela catalogou:


Figura 1: Modelos de elevação de terreno das estruturas catalogadas pela Dr. Eliza


O ramo da Geologia aplicado para verificar a existências de rochas vulcânicas (ou qualquer outro tipo de rocha) é a Litologia. Na região, observam-se dois tipos de formação litológica: as rochas ácidas do tipo Chapecó e as rochas básicas do tipo Vale do Sol.  


Essas denominações dadas aos tipos litológicos são definidas a partir da análise das semelhanças observadas nas características de diferentes rochas. No mapa abaixo, observam-se as rochas básicas do tipo Vale do Sol na parte interna da cratera daquela estrutura anterior, e as rochas ácidas do tipo Chapecó nas bordas dos anéis da cratera.



Figura 2: Rochas básicas e ácidas identificadas no mapa


E como isso está atualmente?


Com a orientação do Doutor em Geografia Wellington Barbosa, numa visita de campo, observamos a paisagem da região que comentei no início do artigo. Essa localidade, onde fica a Av. Rubens Siqueira Ribas, está sobre uma escarpa, na qual seria a borda da estrutura vulcânica atualmente — evidente que já inativa. É graças a esta especificidade geológica que alguns dos problemas que vimos no início podem estar acontecendo — como a deformação asfáltica. 


Figura 3: Observações das paisagens descritas no início do artigo


De milhões de anos atrás até a atualidade, ocorreu, além da atividade vulcânica, uma série de movimentações tectônicas e mudanças climáticas, resultando numa série de falhas e fraturas na rocha de toda a Formação Serra-Geral. Esses eventos sequenciais são fundamentais para compreender um fenômeno que ocorre em grande frequência na região: a percolação de água — ou Nascentes e Recargas de Aquíferos.


Com essa visita em campo, observou-se que existiam nessa estrada muita água escorrendo nas margens e muitos bioindicadores de umidade. A região é tomada por uma vegetação de estágio secundário de recuperação, ou seja com uma vegetação densa, mas sem árvores emergentes e um dossel complexo. Entretanto, há também áreas de capoeira, pastagem e várzeas.


O Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento importante do Código Florestal, não registra a presença de nascentes intermitentes em seus mapas, pois não há exigência da legislação. Portanto, são catalogadas apenas as perenes, ou seja, aquelas que não secam nem param de verter. Na região, existem apenas duas dessas nascentes, que não estão na área de impacto direto do projeto. As demais visualizadas são intermitentes, embora haja diversas espalhadas no terreno. 


A presença abundante de água é o ponto mais importante na tomada de decisão do projeto de revitalização/alargamento da via na região. Um projeto com uma infraestrutura inadequada pode levar a mais prejuízos econômicos, sociais e ambientais no futuro. 


Uma avaliação de impactos ambientais deve levar em consideração todos esses aspectos, pois tais fatos podem ser importantes na tomada de decisões. Viu, como entender o passado, realmente nos leva a entender o futuro? Convido você a também procurar entender o passado da sua região ou cidade e descobrir coisas surpreendentes.


Referências bibliográficas: 


Samuel Felipe Bueno Steimbach. (2023). Considerações sobre o projeto de alargamento da Av. da Serra do Vale do Jordão, baseado no contexto histórico-geológico e ambiental, do Município de Guarapuava (Paraná, Brasil). In Meio Ambiente (Brasil) (Vol. 5, Número 3). Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.10433149


Tratz,  E.  B.  (2017). Geologia  E  Geomorfologia  Das  Estruturas  Circulares  Na  Porção  Central  Da Província Magmática Paraná-etendeka. Tese De Doutorado Em Geografia, Universidade Federal De Santa Catarina, Florianópolis, Sc, Brasil. 167 P



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