A Neurociência da Aprendizagem
- Evelyn Cavalcanti
- 19 de jan.
- 6 min de leitura
Introdução
Neurociência e aprendizagem
A neurociência tem sido um campo revolucionário para a compreensão da aprendizagem, oferecendo insights de como o cérebro processa, armazena e recupera informações. Com conhecimentos sobre seu funcionamento, atentando para detalhes como atenção e memória, o estudante pode adquirir maior eficiência nos estudos e melhora na retenção de informações. O objetivo deste artigo é explicar como o cérebro trabalha no processo de aprendizagem e apresentar metodologias de estudos cientificamente comprovadas.
Desenvolvimento
Fundamentação teórica
Plasticidade neural
Do ponto de vista da neurociência, a aprendizagem é compreendida como modificações do SNC (Sistema Nervoso Central), mais ou menos permanentes, quando o indivíduo é submetido a estímulos e/ou experiências de vida que são traduzidas em modificações cerebrais. (Rotta, 2016b, p. 469).
A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de se modificar e se adaptar em resposta a experiências, aprendizagens ou lesões. A neuroplasticidade ocorre quando há o enfraquecimento ou fortalecimento de sinapses (ponto de contato onde um neurônio se junta ao outro para transmissão de um impulso elétrico ou químico), por exemplo. Quando um caminho neural é repetidamente ativado os neurônios associados se tornam mais fortes, facilitando portanto a transmissão de informações; este princípio é chamado de potenciação de longo prazo (LTP)

De acordo com o livro Neurociência e educação (Cosenza e Guerra, 2011) o processo de aprendizagem favorece a criação de novas sinapses, facilitando o fluxo de informação no interior de circuitos nervosos, aumentando a complexidade das ligações nesses circuitos e promovendo a associação de circuitos independentes. Neurofisiologicamente, isso possibilita que conceitos novos sejam aprendidos a partir de conhecimentos pré-existentes.
Memória e fixação
De modo simplista, a memória é a capacidade que os seres vivos têm de adquirir, armazenar e evocar informações. Os cientistas dividiram a memória em duas partes: memória explícita (ou declarativa) e memória implícita (não-declarativa). A explícita envolve o processamento consciente e é por ela que lembramos de acontecimentos do passado importantes, como datas importantes, nomes de pessoas e lugares. A memória implícita, por outro lado, é normalmente adquirida de forma inconsciente e envolve memórias de procedimentos ou associações, como andar de bicicleta ou tocar um instrumento musical.
No que diz respeito ao processo de fixação da memória, segundo Squire & Kandel, 2003 no livro Fundamental Neuroscience, ele é dividido em três partes: aquisição, consolidação e evocação.
A aquisição ocorre quando a informação chega ao nosso sistema nervoso por meio de estruturas sensoriais. O estímulo atinge órgãos receptores e, através de nervos sensitivos, chega até o Sistema Nervoso Central.
A consolidação é o momento de armazenar a informação. Ela pode ser feita através de alterações bioquímicas, que fortalecem as conexões entre os neurônios ao ativar mensageiros que estimulam a produção de proteínas essenciais para a plasticidade sináptica, ou de fenômenos eletrofísicos, no qual ao tentarmos lembrar de uma nova situação, certos grupos de neurônios continuam ativados por alguns segundos, mantendo temporariamente a informação apenas enquanto ela é necessária, antes de ser rapidamente descartada. Esse fenômeno tem uma curta duração e é o que ocorre na memória sensorial e na memória de trabalho. (Squire, L. R., & Kandel, E. R. (2003). Memória: Da mente às moléculas. Porto Alegre, RS: Artmed.)
E como último estágio, a evocação das memórias, que é a resposta espontânea ou voluntária das informações armazenadas. A evocação (ou recuperação) acontece quando há uma organização dos traços de memória em uma sequência coerente do tempo, dividida em reconhecimento e recordação. O reconhecimento acontece quando estamos em frente de um estímulo previamente conhecido, como quando nos encontramos com pessoas que conhecemos. Já na recordação não há nada familiar conscientemente no momento e temos que “puxar” a informação voluntariamente na memória, por exemplo, ao se lembrar de uma fórmula de física durante a prova.
Metodologia de estudos
Repetição espaçada
A repetição espaçada é um técnica de estudos que envolve a memorização através de revisões constantes em períodos definidos.
Este método está associado a memória de longo prazo e se baseia nos estudos do psicólogo Hermann Ebbinghaus ao observar a capacidade de reter o conteúdo em um intervalo de semanas, esta capacidade é demonstrada na “curva de esquecimento”, ou seja, o período em que ocorre a perda de memória da informação estudada.
Para aplicar na prática, é recomendado rever o assunto estudado em aproximadamente:
1° revisão: 1 dia após o estudo
2° revisão: 3 dias após o estudo
3° revisão: 7 dias após o estudo
4° revisão: 31 dias após o estudo.

Alguns aplicativos como o Anki, Quizlet, uso de flashcards em papel ou questões breves são ótimas maneiras de fazer a revisão.
Recuperação ativa
A recuperação ativa é outro método de revisão em que, após estudado o assunto, utiliza-se maneiras para lembrar do que foi estudado.
Este método força o cérebro a realizar sinapses, conectando neurônios por meio de estímulos e, portanto, fazendo com que o estudante recorde do que foi estudado desde o início.
A recuperação ativa pode ser feita através de flashcards, perguntas e respostas curtas, mapas mentais, ou resumos (escrever tudo o que se lembra do estudo em um papel ou quadro branco).
Combinar os métodos de repetição espaçada (revisar certos períodos de tempo) com a recuperação ativa (revisar através de estímulos) pode melhorar seu aprendizado e é recomendado por psicólogos, educadores e especialistas em aprendizado.
Técnicas de associação e visualização
Um estudo de 1990 publicado no Journal of Educational Psychology e feito por Mayer, R. E., & Gallini, J. K. realizou um experimento no qual dois grupos deveriam aprender sobre o funcionamento das bombas de bicicleta. Um grupo recebeu um texto explicativo e o outro recebeu textos mais um diagrama explicativo. Os resultados foram de 50% mais retenção e capacidade de aplicação do conhecimento para o segundo grupo, que estudou por diagramas.
Esse estudo confirma o conceito da multimídia de Richard. E. Mayer, em que as pessoas aprendem melhor quando a informação é apresentada de maneira multimodal, combinando texto, áudio e imagens.
Outro estudo realizado no artigo "The role of familiarity in spatial memory for novel environments" de Legge, Madan e Fung (2012) analisou o comportamento de dois grupos. O primeiro grupo utilizou um ambiente virtual recém-aprendido como base para o Método de Loci (uma técnica mnemônica que associa informações a locais específicos em um ambiente), enquanto o outro grupo utilizou um ambiente físico familiar (como a própria casa) para a técnica.
O resultado mostrou que o grupo que utilizou um ambiente familiar obteve melhor desempenho em comparação ao grupo que utilizou um ambiente recém-aprendido, indicando que a familiaridade com o ambiente organiza melhor a memória espacial, reduz a carga cognitiva e facilita a recuperação da informação.
Ensinar a alguém
A metodologia de ensinar para alguém é cientificamente efetiva, uma vez que dar uma aula requer o domínio do assunto apresentado. Metodologias como o Método de Feynman e Instrução por Pares (Peer Instruction) podem ser utilizadas para um estudo eficaz. O Método de Feynman é baseado na ideia de que, para realmente entender um conceito, é necessário ser capaz de explicá-lo de forma simples, como se estivesse ensinando outra pessoa. Esse método permite que o estudante aprofunde o conhecimento, identifique lacunas, reforce a memória ativamente e seja capaz de explicar o assunto simplificadamente. Feynman foi um físico vencedor do prêmio nobel de 1965, conhecido por explicar conceitos como física quântica de maneira que crianças pudessem entender. Já o método de Instrução por Pares, desenvolvido pelo físico Eric Mazur na universidade de Harvard, consiste em dividir os alunos em duplas ou grupos pequenos para discutirem, criarem conceitos e resolverem problemas. A técnica revela que é possível aprender mais e conhecer mais se trabalhado em conjunto, estimulando a visão de diferentes perspectivas, habilidades de comunicação e a participação social.
Conclusão
Aplicação para estudantes
Este artigo teve como objetivo analisar os impactos da metodologia de ensino ativo na aprendizagem. Os resultados neurocientíficos indicam que o uso de métodos de estudo ativo aumenta significativamente a retenção do conteúdo e a atenção do estudante.
Diante disso, os achados sugerem que a adoção dessas estratégias pode contribuir para um aprendizado mais eficiente, garantindo também a retenção da memória a longo prazo. Estudos futuros podem aprofundar a investigação sobre a aplicação dessas abordagens em diferentes contextos educacionais e faixas etárias, tornando essencial o papel de novos estudos científicos na área da neurociência da aprendizagem.
Referências






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