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  • Foto do escritor Ryan Santos

INTERSECÇÕES ENTRE NEUROTRANSMISSÃO, DEPRESSÃO E AMBIENTE LABORAL

Este artigo aborda as interseções entre neurotransmissão, depressão e ambiente laboral, investigando os complexos vínculos entre saúde mental e condições de trabalho. Serão exploradas questões fundamentais, tais como a relação entre a neurotransmissão e a manifestação da depressão, bem como os impactos do estresse ocupacional na saúde mental dos trabalhadores. A análise dessas interações destaca a importância de estratégias para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e equilibrados.


A neurotransmissão, processo fundamental no funcionamento do sistema nervoso, pode ser compreendida como um intrincado jogo de dominó. Cada neurônio atua como uma peça nesse jogo, enviando sinais elétricos ou químicos para se conectar a outros neurônios. Quando um neurônio libera neurotransmissores na fenda sináptica, é como se uma peça de dominó empurrasse outra, desencadeando uma série de reações que resultam na propagação do impulso nervoso. Assim como no dominó, onde a precisão é crucial para as peças caírem na sequência correta, no sistema nervoso, uma comunicação eficiente garante a coordenação das atividades neurais em todo o encéfalo e sistema nervoso, essencial para as funções cognitivas, emocionais e motoras (Berne, Robert; Levy, Matthew, 2018).


Nesse contexto, a discussão sobre a depressão é altamente relevante, uma vez que as alterações nesse processo desempenham um papel significativo na etiologia dessa doença. A depressão pode interferir na eficácia da comunicação entre os neurônios, promovendo desequilíbrios na disponibilidade de neurotransmissores e na sensibilidade dos receptores pós-sinápticos. Essas mudanças podem impactar a excitabilidade celular e a modulação neuronal, contribuindo para os sintomas depressivos. Assim, compreender os mecanismos subjacentes à interação entre depressão e neurotransmissão é fundamental não apenas para o diagnóstico e tratamento adequados, mas também para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes e para a melhoria dos tratamentos existentes, para que sejam capazes de abordar as complexidades dessa condição mental com maior precisão e eficácia.


A transmissão entre neurônios pode ser considerada uma dança delicada e precisa, onde cada passo envolve a liberação e recepção de sinais que mantêm a comunicação fluindo. De maneira análoga, é como se cada neurônio fosse um músico em uma orquestra, dependendo uns dos outros para criar uma harmonia perfeita. Assim como uma orquestra depende da harmonia entre seus músicos, cada neurônio depende dos outros para criar uma sincronia cerebral. No entanto, a depressão atua como um solavanco nesse processo, em que uma nota fora de sintonia que desestabiliza a melodia cerebral. Imagine uma orquestra tocando uma sinfonia, onde cada músico depende dos outros para criar uma harmonia perfeita. Quando um músico perde o compasso ou toca uma nota errada, a sinfonia é interrompida, e o impacto reverbera por toda a orquestra. Da mesma forma, as interrupções na neurotransmissão causadas pela depressão podem gerar um efeito dominó no cérebro, desajustando o equilíbrio da atividade neuronal e perturbando o bem-estar mental. Compreender esses efeitos permite que cientistas e profissionais da saúde desenvolvam tratamentos que restabeleçam a harmonia perdida, oferecendo alívio para aqueles que sofrem com essa condição (Berne, Robert; Levy, Matthew, 2018).


Figura 1 - Representação de uma sinapse. Fonte: Berne, Robert; Levy, Matthew, 2018.


A imagem ilustra claramente uma sinapse de elementos químicos em ação, destacando a liberação das três principais classes de neurotransmissores e os processos envolvidos nesse importante mecanismo de comunicação entre os neurônios. A representação visual mostra os mecanismos de liberação, os locais de ação e os processos de término da atividade de cada tipo de neurotransmissor. Nas sinapses reais, os neurônios podem liberar transmissores de uma ou mais classes, possibilitando uma comunicação complexa e diversificada entre as células nervosas. Ao observar a imagem, pode-se compreender melhor como os sinais são transmitidos entre os neurônios e como essa comunicação é crucial para o funcionamento adequado do sistema nervoso.


A observação da sinapse em ação nos leva a refletir sobre outro aspecto crucial do funcionamento cerebral: a plasticidade cerebral. A plasticidade cerebral é a capacidade do sistema nervoso de se adaptar e se reorganizar em resposta a estímulos e demandas ambientais. Esse fenômeno desempenha um papel crucial para o aprendizado e a memória, bem como para a recuperação de lesões neurológicas. Uma das formas pelas quais o cérebro demonstra plasticidade é por meio da depressão sináptica, que é uma redução temporária da eficiência das sinapses. Quando ocorre em resposta a experiências ou atividades específicas, a depressão sináptica pode influenciar a maneira como as redes neurais se desenvolvem e se ajustam ao longo do tempo. Isso permite que o sistema nervoso se molde de acordo com as necessidades do organismo, promovendo adaptações benéficas para a sobrevivência e o funcionamento ideal. Por exemplo, experiências de aprendizagem intensa podem levar a uma diminuição da atividade sináptica em algumas áreas, resultando em uma modificação dinâmica das conexões neurais. (Berne, Robert; Levy, Matthew, 2018).


Além disso, a diminuição da função dos neurônios liberadores de neurotransmissores específicos, como a serotonina, pode predispor a condições patológicas oportunistas. A eficácia de fármacos que visam contrabalançar a perda desses neurotransmissores evidencia a importância desses sistemas na regulação do funcionamento cerebral e comportamental. No contexto da depressão, por exemplo, a atividade reduzida dos neurônios secretores de norepinefrina e serotonina é implicada como uma possível causa, sustentada pela observação de que fármacos que bloqueiam a secreção dessas substâncias frequentemente induzem à depressão. Por outro lado, medicamentos que aumentam os efeitos desses neurotransmissores têm sido eficazes no tratamento da depressão, sugerindo um desequilíbrio neuroquímico subjacente (Guyton, Arthur, et al, 2021).


Nesse viés, o sistema límbico é uma rede complexa de estruturas cerebrais envolvidas na regulação de funções emocionais e comportamentais. Essas estruturas incluem o hipocampo, amígdala, tálamo, hipotálamo e córtex cingulado, entre outras. O hipocampo desempenha um papel crucial na consolidação da memória e na navegação espacial, enquanto a amígdala está intimamente relacionada ao processamento emocional, especialmente ao medo e à ansiedade. O tálamo atua como um centro de retransmissão sensorial, transmitindo informações sensoriais para diversas áreas do cérebro, incluindo o córtex cerebral e o sistema límbico. No mais, o hipotálamo é responsável por regular funções autonômicas e endócrinas, além de desempenhar um papel importante na regulação do humor e do comportamento alimentar e sexual. Por fim, o córtex cingulado está envolvido no processamento cognitivo e na regulação da atenção e do controle emocional. Essas estruturas interagem complexamente para modular as respostas emocionais e comportamentais em resposta a estímulos intrínsecos e extrínsecos (Guyton, Arthur, et al, 2021).


Figura 2 - Representação gráfica do sistema límbico. Fonte: Guyton, Arthur, et al, 2021, p. 752.


Adicionalmente, a depressão exerce efeitos deletérios sobre o sistema límbico. Estudos sugerem que alterações na estrutura e função do hipocampo e da amígdala estão associadas à depressão, incluindo redução do volume e da atividade neuronal nessas regiões. Além disso, o desequilíbrio nos neurotransmissores, como serotonina, noradrenalina e dopamina, que regulam as funções emocionais, pode contribuir para os sintomas depressivos. Essas alterações neuroquímicas no sistema límbico podem resultar em disfunções no processamento emocional, na memória e na regulação do humor, características comuns na depressão. Portanto, compreender os efeitos da depressão sobre o sistema límbico é crucial para desenvolver abordagens eficazes de diagnóstico e tratamento para essa condição mental (Guyton, Arthur, et al, 2021).


As interações psicossociais exercem um impacto significativo no estresse tanto mental quanto físico. Ademais, as rotinas laborais extenuantes e prolongadas são fatores que contribuem para a sobrecarga na comunicação neural. Em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, analisaram-se indivíduos que apresentaram sintomas de depressão durante suas vidas. Durante essa pesquisa, identificaram-se três tipos de danos prevalentes na maioria dos participantes. Dois desses danos são decorrentes de microangiopatias, e os microinfartos, de maior dimensão e geralmente localizados em regiões específicas. Essas condições resultam na morte das células circundantes devido à interrupção do fornecimento de nutrientes e oxigênio, e são frequentemente associadas à demência, ocasionando a perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva. O terceiro tipo de lesão é provocado pelos corpos de Lewy, aglomerados da proteína alfa-sinucleína que se formam no interior dos neurônios e levam à morte dessas células. (Nunes, P, et al, 2022).


Ademais, a compreensão da psicopatologia da depressão revela-se multifacetada e intricada, abarcando uma gama diversificada de fatores tanto extrínsecos quanto intrínsecos. Diversos estudos acadêmicos enfatizam a importância de analisar a interação entre esses fatores, reconhecendo a complexidade dos elementos envolvidos nos episódios depressivos. Nesse contexto, destaca-se a influência significativa tanto de estressores psicossociais, relacionados a eventos de vida estressantes, quanto de processos neurobiológicos subjacentes. O primeiro episódio depressivo está frequentemente associado às situações de estresse emocional, social ou ambiental, os quais desempenham um papel desencadeante na manifestação da doença. Por outro lado, os episódios depressivos subsequentes tendem a ser mais intrínsecos, surgindo de maneira endógena, sem necessariamente depender de estressores externos evidentes. Essa compreensão da heterogeneidade dos fatores desencadeantes da depressão enfatiza a necessidade de uma abordagem integrada e holística no diagnóstico, tratamento e prevenção dessa condição mental complexa.


Nesse sentido, a depressão resulta da interação entre estressores externos e processos neurobiológicos internos, demandando uma abordagem integrada no tratamento. Situações como perdas significativas e traumas precoces podem aumentar a probabilidade de desenvolver transtornos mentais, como a depressão, ao longo da vida. Eles explicam como o estresse provoca uma série de reações químicas e respostas fisiológicas no organismo, especialmente através do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, resultando em alterações neurobiológicas duradouras. Investigações sobre as alterações neurobiológicas associadas à depressão indicam uma possível relação entre a perda de volume cerebral, especialmente no hipocampo, e a duração não tratada da depressão, levantando a hipótese de um aumento da sensibilidade ao estresse e maior risco de recorrência. Esses achados ressaltam a importância de uma abordagem precoce e eficaz no tratamento da depressão, visando não apenas os aspectos psicossociais, mas também os mecanismos neurobiológicos subjacentes, para minimizar potenciais danos cerebrais e melhorar os desfechos clínicos dos pacientes (Hasler, G, 2010).


No dia a dia, recebemos estímulos que afetam a nossa capacidade neurológica. Estes super estímulos, que vão desde alimentos altamente processados até o uso excessivo de dispositivos eletrônicos, conseguem ativar complexos mecanismos em nosso organismo, influenciando diretamente a produção e regulação de hormônios essenciais para o funcionamento adequado do sistema nervoso e do sistema endócrino. Esta interação entre os estímulos do ambiente moderno e nossa biologia ancestral pode desencadear uma série de respostas neurobiológicas, algumas das quais podem ser prejudiciais para a nossa saúde física e mental. Portanto, compreender o impacto desses super estímulos na fisiologia e na síntese de hormônios é crucial para abordar os desafios de saúde que enfrentamos na era contemporânea (HARVARD, 2022).


Os fatores psicossociais estressores no ambiente de trabalho são preponderantes. Eles estão associados a um aumento significativo no risco de sofrimento mental. De acordo com um estudo analítico, conduzido em 2020, que abrangeu profissionais de saúde visando analisar os fatores estressantes laborais. Dados sociodemográficos, aspectos ocupacionais e características psicossociais do trabalho, bem como sofrimento mental foram tópicos abordados na pesquisa. A prevalência de sofrimento mental foi significativa, atingindo 61,6% dos participantes. Características como sexo feminino, idade até 40 anos, jornada semanal de trabalho igual ou superior a 60 horas, trabalho de alta exigência psicossocial e baixo apoio dos colegas foram associadas a um maior risco de sofrimento mental (Sival, J, et al, 2020).


Figura 3 - Gráfico exibindo os principais fatores estressores no ambiente laboral, conforme pesquisa supramencionada. Fonte: Produzido pelo autor (2024).


Diante da análise detalhada dos fatores estressores presentes no ambiente laboral, torna-se imprescindível uma compreensão profunda do panorama revelado pelo gráfico. Esse instrumento visual não apenas evidencia os elementos laborais que exercem maior pressão sobre os profissionais de saúde, mas também fornece uma visão abrangente das morbidades prevalentes entre esses trabalhadores. Ao considerar aspectos ocupacionais e características psicossociais do trabalho, o gráfico se torna uma ferramenta poderosa para identificar os pontos críticos que afetam a saúde mental dos colaboradores. Ademais, ao corroborar os achados da pesquisa, o gráfico amplia a compreensão dos impactos desses fatores no bem-estar geral dos trabalhadores, destacando a urgência de intervenções e políticas que promovam um ambiente laboral mais saudável e equilibrado (Sival, J; et al, 2020).


Desse modo, este artigo explorou as complexidades da neurotransmissão e da depressão, destacando os vínculos cruciais entre saúde mental e ambiente laboral. Ao analisar os processos intrincados da comunicação neuronal e os efeitos prejudiciais da depressão no sistema límbico, foi possível obter uma visão clara dos mecanismos subjacentes a essa condição mental e sua interação com o estresse ocupacional. A avaliação dos fatores estressores no ambiente de trabalho ressaltou a importância de políticas e intervenções que promovam o bem-estar dos trabalhadores, evidenciando a necessidade urgente de criar ambientes laborais mais saudáveis e equilibrados. 


Portanto, este estudo ressalta a importância de abordagens integradas que considerem aspectos neurobiológicos e contextos psicossociais para compreender e tratar a depressão. A implementação de estratégias efetivas pode contribuir significativamente para uma maior qualidade de vida e produtividade no ambiente de trabalho, promovendo um ciclo positivo de bem-estar e eficiência para todos os envolvidos. De fato, ao promover um ambiente de trabalho mais equilibrado, é possível prevenir novos casos de depressão e outros transtornos mentais, beneficiando tanto os trabalhadores quanto as organizações.






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


[1] BERNE, Robert; LEVY, Matthew. Fisiologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. GUYTON, Arthur C.; HALL, Michael E.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2021, 1121 p. 572-586.

HAVARD. What Causes Depression? Onset of Depression more Complex than a Brain Chemical Imbalance. Havard Medical School, 2022. Disponível em: https://www.health.harvard.edu/mind-and-mood/what-causes-depression. Acesso em: 02 fev. 2024.


[2] HAVARD. How Genes and Life Events Affect Mood and Depression. Havard, 2022. Disponível em: https://www.health.harvard.edu/depression/how-genes-and-life-events-affect-mood-and-depression. Acesso em: 02 fev. 2024


[3] HASLER, G. Pathophysiology of Depression: do we Have any Solid Evidence of Interest to Clinicians? World Psychiatry, 2010.

LENCASTRE, Marina. Etiologia da Depressão: Contribuição para uma Perspectiva Evolutiva das Emoções Sociais e da Depressão. Revista de Saúde Mental, 2006. Vol. XI, nº4.


[4] NUNES, Paula; SUEMOTO, Claudia; RODRIGUEZ, Roberta; LEITE, Renata; NASCIMENTO, Camila; PASQUALUCCI, Carlos; NITRINI, Ricardo; JACOB-FILHO, Wilson;  GRINBERG, Lea; LAFER, Beny. Neuropathology of Depression in non-Demented Older Adults: A Large Postmortem Study of 741 Individuals. Neurobiology of Aging, 2022. P. 107-116. ISSN 0197-4580.


[5] SIVAL, J; CUNHA, A; LOURENÇÃO, D; SILVA, S; SILVA, R; FARIA, M; MINIEL, V; ALMEIDA, M; BAPTISTA, P; GALLASCH, C. Occupational Psychosocial Stressors and Mental Distress Among Healthcare Workers During COVID-19 Pandemic. São Paulo: Einstein, 2021. ISSN 2317-6385.









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