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Entre buracos negros e o infinito: a jornada teórica de Hawking

  • Gabrielly Cayres Marques
  • 16 de nov. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 21 de nov. de 2025

1. Introdução 

Desde os primórdios da humanidade, o céu tem sido um mistério. O anseio por uma resposta sobre essa vasta imensidão, que desperta tanto temor quanto curiosidade, tem motivado uma verdadeira investigação sobre como tudo se originou. 


Enquanto alguns se apoiam na ideia religiosa da criação bíblica, outros acreditam que tudo surgiu do nada. Mas serÔ mesmo que tudo veio do "nada"? 


Olhar para o cosmo sempre foi, em certo sentido, olhar para dentro de nós mesmos buscando, entre galÔxias e mistérios, respostas e perguntas que nos acompanham desde a aurora da razão: de onde viemos? Por que existimos? O que é o tempo? Existe um propósito? 


Este artigo tem como principal objetivo a investigação da busca de Stephen Hawking pela unificação da fĆ­sica. A unificação da fĆ­sica Ć©, no fundo, a busca humana por uma linguagem Ćŗnica capaz de traduzir todos os movimentos e silĆŖncios do universo. Ɖ o desejo de encontrar uma melodia que explique por que uma folha cai, uma estrela explode e o tempo corre — como se todos esses fenĆ“menos fossem notas de uma mesma sinfonia cósmica.


Pense assim: a fĆ­sica atual Ć© como um mosaico. Temos peƧas diferentes — a mecĆ¢nica quĆ¢ntica, que governa o minĆŗsculo, e a relatividade geral, que rege o gigantesco. Cada uma dessas peƧas brilha por si, mas quando tentamos encaixĆ”-las, hĆ” fissuras, pequenas fraturas na imagem do todo. A unificação seria o momento em que todas essas peƧas se encaixassem perfeitamente, revelando o desenho completo da realidade.


Ɖ como se a humanidade tivesse aprendido dois idiomas para conversar com o universo: o da relatividade, falado pelas galĆ”xias, e o da mecĆ¢nica quĆ¢ntica, sussurrado pelos Ć”tomos. Mas ambos descrevem a mesma história — apenas em dialetos diferentes. A unificação seria a tradução perfeita, uma lĆ­ngua universal que tanto as estrelas quanto as partĆ­culas poderiam compreender.


HĆ” tambĆ©m um aspecto quase espiritual nessa busca: Ć© o anseio de compreender o que liga tudo. O que faz o invisĆ­vel conversar com o visĆ­vel? O que faz a danƧa das forƧas nĆ£o ser um caos, mas um balĆ©? Encontrar essa resposta seria como descobrir que todas as cordas do universo — do coração humano Ć s supercordas cósmicas — vibram na mesma frequĆŖncia de existĆŖncia.


Einstein procurou essa unidade como quem busca o som original do universo, a nota primordial que ecoou antes de tudo. Hawking seguiu o mesmo rastro, acreditando que no fundo do buraco negro e na origem do Big Bang havia a mesma verdade, apenas vista de Ć¢ngulos diferentes — como luz refletida em espelhos curvados.


Em Ćŗltima instĆ¢ncia, a unificação da fĆ­sica nĆ£o Ć© apenas uma questĆ£o cientĆ­fica; Ć© uma questĆ£o de poesia cósmica. Ɖ o desejo de compreender que as leis que fazem uma maçã cair sĆ£o as mesmas que fazem as galĆ”xias danƧarem — e que, talvez, nós tambĆ©m sejamos parte dessa danƧa, movidos pela mesma gravidade secreta que une tudo o que existe. Analisando suas principais contribuiƧƵes, como a radiação de buracos negros, a proposta do universo sem fronteiras e suas ideias sobre a origem de tudo.Ā Muito alĆ©m das fórmulas e teorias, o que se busca Ć© compreender o impacto de suas ideias sobre a visĆ£o de mundo – e de nós mesmos.Ā 


2. A Radiação de Hawking e a gravidade quântica 


A previsĆ£o teórica de Hawking, proposta em 1974, afirma que os buracos negros nĆ£o sĆ£o completamente "negros", mas emitem partĆ­culas devido a efeitos quĆ¢nticos próximos ao horizonte de eventos, Isto Ć©, a ā€œfronteiraā€ de um buraco negro onde a gravidade Ć© tĆ£o forte que nada, nem mesmo a luz, pode escapar. Essa emissĆ£o de partĆ­culas Ć© conhecida como "radiação Hawking", que se trata sobre a evaporação de buracos negros. Esse tipo de radiação faz com que os buracos negros percam energia e, com a perda de energia, consequentemente, percam massa, causando a evaporação.Ā 


Essa descoberta indicou a conexĆ£o entre a mecĆ¢nica quĆ¢ntica, a termodinĆ¢mica e a relatividade geral. No entanto, essa ideia trouxe um grande problema teórico: se os buracos negros evaporam, o que acontece com a informação quĆ¢ntica? Desde o inĆ­cio, o ser humano busca decifrar o idioma do universo. Olhamos para as estrelas como quem tenta ler uma carta antiga, escrita em uma lĆ­ngua esquecida. Durante sĆ©culos, acreditamos que o cosmos fosse um relógio: previsĆ­vel, mecĆ¢nico, feito de engrenagens invisĆ­veis. Mas a fĆ­sica quĆ¢ntica surgiu como um sussurro que rompeu o silĆŖncio — revelando que, por trĆ”s das aparĆŖncias sólidas, tudo vibra, oscila e se escreve em linguagens de probabilidade. Nesse novo horizonte, a matĆ©ria se dissolve em informação. O universo nĆ£o Ć© apenas feito de Ć”tomos, mas de mensagens codificadas em luz e energia. E Ć© dessa percepção que nasce o campo da informação quĆ¢ntica — uma das tentativas mais profundas de compreender nĆ£o o que o universo Ć©, mas o que ele sabe.


Na fĆ­sica clĆ”ssica, tudo Ć© definido, sólido, mensurĆ”vel. Uma bola estĆ” aqui ou ali, um planeta segue uma órbita exata, uma causa gera um efeito. Mas o mundo quĆ¢ntico Ć© diferente: nele, uma partĆ­cula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, existir e nĆ£o existir, ser e deixar de ser — atĆ© que alguĆ©m a observe. Essa dualidade faz da informação quĆ¢ntica uma ciĆŖncia do invisĆ­vel. Ela trata cada partĆ­cula como um qubit, uma unidade de informação capaz de conter infinitas possibilidades simultĆ¢neas. Ɖ como se o universo fosse um poema escrito em versos superpostos, e apenas ao ser lido ele escolhesse qual estrofe revelar.


O entrelaƧamento quĆ¢ntico — esse elo misterioso entre partĆ­culas distantes — Ć© talvez o verso mais belo dessa poesia. Duas partĆ­culas, separadas por anos-luz, continuam ligadas por uma espĆ©cie de lembranƧa cósmica. O que acontece com uma afeta a outra instantaneamente, como se compartilhassem um mesmo coração pulsando em lugares diferentes. Ɖ o universo nos dizendo que o espaƧo e o tempo talvez sejam apenas ilusƵes, e que a informação Ć© o verdadeiro tecido da realidade — algo que ultrapassa as fronteiras do fĆ­sico e toca o metafĆ­sico.


O fĆ­sico John Wheeler sintetizou isso em uma frase que ecoa como um koan quĆ¢ntico: ā€œIt from bitā€ — o ser nasce do dado. Ou seja, tudo o que existe — matĆ©ria, energia, espaƧo e tempo — Ć©, no fundo, uma expressĆ£o de informação. O universo seria, entĆ£o, uma grande mente cósmica em constante processamento de dados, uma rede viva de significados trocados entre partĆ­culas, campos e consciĆŖncias.


A informação quĆ¢ntica Ć© mais do que uma teoria cientĆ­fica; Ć© um espelho da própria busca humana por sentido. Quando tentamos entender como o universo ā€œpensaā€, acabamos olhando para o modo como nós mesmos pensamos. O mundo deixa de ser um conjunto de coisas e passa a ser uma conversa — uma teia infinita de mensagens trocadas entre tudo o que existe.


Compreender a informação quĆ¢ntica Ć©, portanto, tentar ouvir o idioma primordial do cosmos. Ɖ buscar, no meio do ruĆ­do das partĆ­culas, o som original do universo — aquele que ecoou antes mesmo do Big Bang. E talvez, quando finalmente decifrarmos essa linguagem, perceberemos que nĆ£o somos observadores externos dessa conversa cósmica. Somos parte dela. Somos informação que sonha, fragmentos conscientes da própria mensagem universal contida neles? Alguns fĆ­sicos acreditam que tal informação Ć©, na verdade, preservada, embora nĆ£o esteja tĆ£o clara.Ā As ideias de Hawking sobre a emissĆ£o de radiação dos buracos negros acabam sendo levadas ao Paradoxo da Informação, que desafia as leis da fĆ­sica, como a conservação da informação.Ā 


Então, qual é o paradoxo? Imagine um livro inteiro com a história de uma vida, sendo cada pÔgina repleta de detalhes, lembranças e escolhas. Agora, jogue esse livro em um buraco negro. Pela Relatividade Geral, nada escapa da, ou seja, o livro, as palavras e a história estariam todos perdidos para sempre. Mas a Mecânica Quântica diz, por outro lado, que nenhuma informação no universo pode simplesmente desaparecer. Ela pode mudar de forma, se embaralhar, se tornar irreconhecível, mas jamais ser apagada. Eis o conflito que Stephen Hawking revelou: se um buraco negro evapora lentamente pela sua radiação, para onde vai a informação que ele engoliu? 


Se desaparece, a Mecânica Quântica estaria errada. Se persiste de algum modo, nossa compreensão dos buracos negros ainda é incompleta. 


Esse dilema é chamado Paradoxo da Informação. Mais do que um problema técnico, ele é quase um enigma filosófico, porque faz surgir a dúvida: pode o universo permitir o esquecimento absoluto? 


3. O Universo Sem FronteirasĀ 


Em 1983, os cientistas Stephen Hawking e James Hartle apresentaram a proposta do universo sem fronteiras, uma das ideias mais ousadas da cosmologia moderna. Diferente da visĆ£o clĆ”ssica do Big Bang, em que o universo teria surgido de um ponto inicial infinitamente denso, essa hipótese sugere algo mais sutil e intrigante. De acordo com ela, o universo nĆ£o teve um ā€œcomeƧo.ā€


Segundo eles, no instante primordial, o tempo não existia como o conhecemos. Em vez de uma linha cronológica que remonta até um início absoluto, havia uma região em que o tempo se comportava como mais uma dimensão do espaço. Esse conceito, conhecido como tempo imaginÔrio, elimina a necessidade de um ponto de origem abrupto. O universo, portanto, não "explodiu" a partir de um nada, mas emergiu suavemente.


Do ponto de vista matemÔtico, essa proposta nasce da tentativa de unir a Mecânica Quântica à Relatividade Geral - uma versão embrionÔria daquilo que chamamos de gravidade quântica. Mas, filosoficamente, ela abre um campo de reflexão ainda mais profundo: se o universo não teve fronteira, ele também não exigiu uma "condição inicial" nem uma causa externa para existir. Não precisaria, por exemplo, de uma entidade divina que acendesse a chama da criação. 


Essa ideia confronta a noção humana de causalidade. Nossa mente estÔ habituada a perguntar: "O que veio antes? Quem iniciou tudo?". Mas, no modelo de Hartle e Hawking, essa pergunta perde o sentido, porque não havia nada antes do tempo. O próprio tempo é produto do universo.


Assim, a proposta do universo sem fronteiras não é apenas um exercício de física teórica, mas uma provocação filosófica. Ela sugere que a existência pode ser autossuficiente, que o cosmos não precisa de algo externo para justificÔ-lo. 


4. A Teoria de Tudo na Visão de Hawking 


Stephen Hawking imaginava que, em algum lugar do universo, existia uma grande fórmula secreta capaz de explicar tudo o que acontece na natureza, desde o movimento das estrelas atĆ© o comportamento das partĆ­culas minĆŗsculas. Ele chamava essa busca de ā€œTeoria de tudoā€. Para Hawking, essa fórmula ainda nĆ£o tinha sido descoberta, mas ele acreditava que a gravidade quĆ¢ntica, uma ideia que une a MecĆ¢nica QuĆ¢ntica com a Relatividade, poderia ser a chave.Ā 



Hawking tambĆ©m olhou para outras ideias, como a teoria das supercordas e a gravidade quĆ¢ntica em loop– A teoria das supercordas propƵe que tudo no universo — partĆ­culas, forƧas e atĆ© o espaƧo-tempo — surge de minĆŗsculas cordas vibrantes. Cada tipo de vibração gera uma partĆ­cula diferente, como notas em um instrumento cósmico. Assim, o universo seria uma sinfonia feita de cordas fundamentais, vibrando em dimensƵes alĆ©m das que percebemos. Essa teoria busca unificar a relatividade e a mecĆ¢nica quĆ¢ntica, mostrando que gravidade e matĆ©ria sĆ£o apenas modos distintos de vibração do mesmo tecido essencial.


JÔ a gravidade quântica em loop segue outro caminho. Em vez de cordas, ela vê o espaço-tempo como uma rede entrelaçada de pequenos anéis de energia que se conectam como uma malha. Essa teia forma a estrutura quântica do próprio espaço, onde o tempo e o espaço deixam de ser contínuos e passam a ser feitos de grãos, como pixels da realidade.


Em essência, as supercordas dizem que tudo vibra, enquanto a gravidade em loop diz que tudo se entrelaça. Ambas tentam revelar o mesmo segredo: que o universo, por trÔs de suas formas, é pura geometria em movimento. Pareciam caminhos promissores para essa grande unificação. Mas ele sabia que o universo é muito criativo e, às vezes, resistente às nossas perguntas simples. 



Com o tempo, começou a imaginar que talvez não existisse uma única resposta para tudo. Talvez a verdade fosse como uma família de soluções, diferentes maneiras de explicar o cosmos, todas corretas ao seu modo - uma ideia que se conecta com a noção de multiverso, onde podem existir muitos universos com suas próprias leis. 


Em seu livro O Grande Projeto (2010), Hawking escreveu que não é preciso imaginar Deus acendendo a chama do universo. Para ele, o universo poderia surgir "do nada", guiado apenas pelas leis da física, como se essas leis fossem sementes invisíveis que, sozinhas, conseguem criar mundos inteiros. Filosoficamente, isso nos leva a pensar que o universo não precisa de alguém para começar a história. Ele jÔ carrega em si mesmo as regras do jogo, e a existência é como uma peça de dominó infinita: uma pequena lei física inicia movimentos que se espalham, formando estrelas, planetas e até nós. A beleza dessa visão é que, mesmo diante do mistério e do impossível de ver, tudo segue uma lógica, uma dança silenciosa escrita nas próprias leis do cosmos. 


5. Conclusão 


Stephen Hawking, mesmo enfrentando muitas críticas e discordâncias em relação às suas teorias, especialmente por conta de seu posicionamento ateísta, foi um dos mais criativos e influentes cientistas na tentativa de construir uma teoria capaz de unificar a física. Suas contribuições para a cosmologia e a física teórica foram extremamente relevantes, visto que exploraram os limites da relatividade geral e da mecânica quântica. Sua proposta sobre o universo sem fronteiras, a radiação de buracos negros e sua defesa de um universo autoexplicÔvel moldaram profundamente o debate contemporâneo sobre a origem e o destino do cosmo. 



Embora a tĆ£o almejada ā€œTeoria de tudoā€ ainda nĆ£o tenha sido completamente formulada, os caminhos abertos por Hawking possibilitaram que outros cientistas avanƧassem em essa busca. Assim, servindo tambĆ©m de inspiração para futuras geraƧƵes de fĆ­sicos que desejam compreender de forma mais completa o universo em que vivemos.Ā 


6. ReferĆŖnciasĀ 


Hawking, S. W. (1974). Black hole explosions? Nature, 248, 30-31.Ā 

Hawking, S. W., & Hartle, J. (1983). Wave function of the Universe. Physical Review D, 28(12), 2960.Ā 

Hawking, S. (1988). A Brief History of Time. Bantam Books.Ā 

Hawking, S., & Mlodinow, L. (2010). The Grand Design. Bantam Books.Ā 

Greene, B. (1999). The Elegant Universe. W. W. Norton & Company.


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