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  • Foto do escritorRyan Santos

VOCÊ SABE O QUE SABE? TRANSCENDENDO A IGNORÂNCIA

O artigo examina como a percepção do mundo é moldada pelo alcance do saber e da experiência. Destaca que as crenças, valores e compreensão do universo são influenciadas pela linguagem, cultura e inconsciente coletivo. Ele explora a perspectiva de Jacques Lacan, que enfatiza o papel da linguagem na constituição do sujeito e na interpretação da realidade. Visa promover uma reflexão sobre a importância de buscar conhecimento para expandir os horizontes, aprofundando a compreensão do universo e do próprio ser. Sugere que a busca por aprendizado constante pode tornar indivíduos mais conscientes e capazes de compreender as complexidades do mundo ao seu redor ⁷. 


Nesse sentido, Pierre Bourdieu, em sua teoria do habitus, argumenta que o conhecimento e as experiências de um indivíduo moldam sua percepção na sociedade. Para Bourdieu, o habitus é um conjunto de disposições, habilidades e propensões que os indivíduos adquirem ao longo de suas vidas, a partir de suas interações com diferentes ambientes e contextos sociais. Esse sistema interno de percepções e respostas se desenvolve conforme as pessoas vivenciam experiências únicas, o que acaba por determinar sua visão de mundo e sua maneira de agir diante de situações diversas. Desse modo, essa abordagem mostra que o habitus influencia como cada pessoa interage com as estruturas sociais estabelecidas, reproduzindo ou desafiando as normas e valores dominantes em sua esfera psicossocial. 

Figura 1 - Teoria do Habitus. Fonte: Socio Logía (YouTube). 


Além disso, os indivíduos são influenciados por sua posição social, seu contexto sócio histórico-cultural, e suas experiências, que contribuem para a formação de seus gostos, interesses e comportamentos. Assim, a teoria do habitus de Bourdieu revela como as trajetórias pessoais se entrelaçam com a ordem social existente, perpetuando e transformando os padrões de comportamento ³;⁵. 


A teoria do habitus oferece uma lente crítica para destrinchar as interações entre indivíduo e sociedade em que, destaca-se a importância do contexto social na formação do indivíduo, evidenciando como o ambiente em que uma pessoa se desenvolve exerce influência significativa sobre suas escolhas, aspirações e formas de ver o mundo. Essa abordagem nos convida a refletir sobre o papel das estruturas sociais na construção das identidades individuais, ao mesmo tempo, em que reforça a necessidade de considerar as experiências subjetivas em análises sociológicas e estudos sobre o comportamento humano ³;⁵.


Vale lembrar também que outros nomes importantes devem ser citados. Carl Jung, por exemplo, apresenta o inconsciente coletivo, o qual teoriza que os indivíduos compartilham ideias e conceitos arquetípicos que transcendem suas experiências pessoais. O inconsciente coletivo é uma espécie de reservatório de conhecimentos, memórias e experiências compartilhadas por toda a humanidade, acumuladas ao longo da história evolutiva. Essa teoria propõe que esses conteúdos psíquicos universais influenciem a mente individual, moldando percepções, comportamentos e relações com o mundo. 

Figura 2 - Representação Esquemática de um Arquétipo. Fonte: Psicologicamente (YouTube)


Os arquétipos são conceitos-chave na teoria do inconsciente coletivo de Jung. Eles são padrões universais de comportamento, símbolos e imagens que aparecem em diferentes culturas e épocas, apesar de variações específicas. Esses arquétipos incluem figuras como o herói, o sábio, a mãe, o trickster, entre outros, que desempenham papéis significativos em nossas narrativas pessoais e coletivas. Jung acreditava que esses arquétipos fornecem uma base estrutural para nossa psique, influenciando como interpretamos o mundo ao nosso redor ³;⁶. 

A ideia do inconsciente coletivo de Jung também tem implicações importantes para a psicologia e a cultura. Ele sugere que os mitos, histórias e tradições de diferentes sociedades contêm verdades arquetípicas que ressoam profundamente com a experiência humana compartilhada. O teórico acreditava que a integração dos conteúdos do inconsciente coletivo na consciência era essencial para a saúde mental e o autoconhecimento. Por meio da interpretação de sonhos, arte e mitologia, pode-se acessar esses arquétipos universais e entender melhor o ser e suas conexões com os outros. Assim, a teoria de Jung sobre o


inconsciente coletivo destaca a natureza interconectada da humanidade, sugerindo que, apesar de nossas diferenças superficiais, todos compartilhamos uma herança psíquica comum ³;⁶. Nesse viés, a teoria de Sigmund Freud sobre a influência do inconsciente na percepção da realidade lança luz sobre como desejos reprimidos e experiências não conscientes determinam a maneira como interpretamos o mundo. Freud postulou que a mente humana é dividida em três níveis: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O inconsciente abriga memórias, desejos e emoções que foram suprimidos da consciência, mas continuam a influenciar nossos pensamentos e comportamentos significativamente. 

Figura 3 - Modelo Topográfico de Freud. Fonte: Lewis Psychology (YouTube) 


Ele também introduziu o conceito de mecanismos de defesa, como a repressão, a negação e a projeção, que atuam para proteger a mente consciente de conteúdos indesejados do inconsciente. Esses mecanismos, embora úteis para manter o equilíbrio psíquico, podem distorcer a percepção da realidade e criar interpretações subjetivas baseadas em experiências e desejos não resolvidos. Dessa maneira, a compreensão da influência do inconsciente pode nos ajudar a perceber como nossas interpretações do mundo são moldadas por forças internas que podem permanecer fora da nossa consciência ². 


A teoria freudiana também enfatiza a importância da autocompreensão e do autoconhecimento para uma percepção mais clara e objetiva da realidade. Ao explorar e integrar os conteúdos do inconsciente, podemos superar distorções perceptivas e alcançar uma compreensão mais verdadeira de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Essa abordagem nos convida a considerar as múltiplas camadas de nossa mente e a complexidade das forças que moldam nossa visão do universo, incentivando uma busca contínua por clareza e equilíbrio entre as diferentes partes da psique ². 


Jacques Lacan, renomado psicanalista francês, oferece uma perspectiva única para enriquecer essas discussões sobre conhecimento, realidade e percepção. Sua teoria psicanalítica enfatiza a estrutura da linguagem na constituição do sujeito e do inconsciente, o que pode ajudar a entender melhor como os indivíduos interpretam e constroem sua visão de mundo — cosmovisão. Ele propõe a ideia de que o sujeito é “constituído” pela linguagem, ou seja, sua identidade e percepção da realidade são moldadas pelas estruturas linguísticas que ele internaliza desde a infância. Isso sugere que a cosmovisão é mediada pela linguagem, que dá forma à experiência e ao conhecimento ¹;². 

Figura 4 - Tradição da tribo Fulani, que pregava a luta entre dois homens para mediar a força deles antes do casamento para conquistar o respeito da mulher. Fonte: The Culture Newspaper. 


Adicionalmente, Lacan desenvolveu o conceito de “Real”, “Simbólico” e “Imaginário”. O Real é o domínio da experiência que está além da linguagem e da representação; o Simbólico refere-se ao domínio da linguagem e dos sistemas de significação; e o Imaginário é a esfera da fantasia e das imagens mentais. Para Lacan, a relação entre esses três registros influenciam a percepção e compreensão do mundo. De efeito, Lacan acrescenta a essas discussões a ideia de que a cosmovisão é profundamente influenciada pelas estruturas linguísticas e simbólicas que internalizamos. 

Figura 5 - Esquema da Tríade de Lacan. Fonte: Philosophy Portal (YouTube).


Assim, ele sugere que o inconsciente desempenha um papel significativo em nossa interpretação da realidade, pois aquilo que é reprimido ou ignorado pode ainda assim afetar nossa percepção e comportamento. Isso reforça a importância de explorar as dimensões mais profundas da consciência para expandir o seu entendimento ¹;². 


Destarte, a interculturalidade refere-se à interação entre diferentes culturas e suas tradições, ideias e práticas. Essa interação é uma oportunidade para enriquecer a percepção e compreensão do mundo, visto que ela permite o acesso a diferentes pontos de vista, valores e experiências. O diálogo entre culturas pode promover uma compreensão mais profunda de questões complexas e desafiadoras, além de incentivar a tolerância e a empatia. Estudar a interculturalidade também pode levar à apreciação das diversas formas de pensar e compreender a realidade. Ao adotar perspectivas diferentes, os indivíduos podem ampliar seus horizontes e questionar suas próprias crenças e suposições, promovendo um ambiente de aprendizado contínuo e aberto. 


A teoria crítica é uma abordagem que visa analisar e desafiar as estruturas de poder e dominação presentes na sociedade. Ela examina como as relações de poder afetam como as pessoas percebem e entendem o mundo ao seu redor. Ao investigar as dinâmicas de poder, a teoria crítica visa revelar como certas narrativas e discursos são privilegiados enquanto outros são marginalizados. A compreensão das estruturas de poder pode ajudar a identificar desigualdades sociais e culturais que influenciam a percepção e interpretação da realidade. Assim, a teoria crítica oferece ferramentas para analisar como o poder molda a realidade das pessoas e suas experiências, incentivando um olhar mais atento e crítico sobre o mundo ³;⁴. 


Foucault, por exemplo, em sua obra “microfísica do poder”, explora como o poder e o saber se entrelaçam para moldar a sociedade e os indivíduos. Sua obra destaca a importância de questionar as estruturas de autoridade e as práticas sociais estabelecidas. 

Figura 6 - Microfísica do Poder, de Foucault. Fonte: Conhecimento Livraria.


Habermas, por sua vez, discute a teoria da ação comunicativa e a importância do diálogo na formação de consensos e na transformação social. Já Žižek, é conhecido por sua abordagem psicanalítica à cultura e à política, analisando como a ideologia influencia a percepção da realidade. Assim, através do estudo desses teóricos é possível obter uma compreensão mais profunda das complexas relações entre poder, saber e realidade, abrindo caminhos para análises críticas e reflexivas ⁴;⁷. 


Portanto, diante das teorias anteriormente expostas, é evidente que a percepção da realidade é moldada por uma complexa teia de fatores, incluindo linguagem, cultura, inconsciente coletivo e estruturas de poder. Essas influências destacam a importância de buscar conhecimento e compreensão além das experiências pessoais para expandir a cosmovisão. A reflexão sobre a interação entre indivíduo e sociedade, bem como a busca por uma análise crítica das estruturas de poder, podem abrir caminhos para uma compreensão mais profunda do mundo ao redor e do próprio ser. Assim, ao integrar perspectivas diversas e incentivar o diálogo intercultural, é possível enriquecer a promoção de uma consciência mais clara, capaz de enfrentar as complexidades do mundo com maior entendimento.









REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


[1] COUTO, L; GOMES, M. O estruturalismo em Jacques Lacan: da apropriação à subversão da corrente estruturalista no estabelecimento de uma teoria do sujeito do inconsciente. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica. 2013, v. 16, n. 2. pp. 185-200. 


[2] FREUD, S. Introdução ao psicanalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. [3] GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 2017. 


[4] MANIERI, D. Herbert Marcuse: Teoria Crítica e a Sociedade Tecnológica. Revista Eletrônica de Ciências Sociais, 2007. 


[5] SETTON, M. A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea. Revista Brasileira de Educação. 2002, n. 20., pp. 60-70. ISSN 1809-449X. 


[6] SERBENA, C. Considerações sobre o inconsciente: mito, símbolo e arquétipo na psicologia analítica. Goiânia: Rev. abordagem gestalt, v. 16, n. 1, p. 76-82, 2010. 


[7] ZIZEC, Slavoj. O Sublime Objeto da Ideologia. São Paulo: Boitempo, 2017.














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