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  • Foto do escritorAlex Honda

Quando o agro não é "pop": meio ambiente, agricultura e economia no Brasil.

O que te preocupa? A economia? A política? O futuro? O meio ambiente? Sem querer piorar a situação, mas tudo isso caiu no vestibular do INSPER de 2020. O tema? A relação entre a produção e distribuição de alimentos. Mas, felizmente, a ciência já chegou a estudar isso. Em seu artigo, a pesquisadora Larissa Mies Bombardi do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo discute a geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e suas conexões com a União Europeia.

Ela começa com dados de 2017 que apontam o Brasil como maior exportador mundial de açúcar, 2o maior produtor de soja, milho e etanol a partir da cana de açúcar. Mas também indica que o Brasil, em 2016, importou etanol e milho mesmo se destacando fortemente na produção desses dois itens. O que isso quer dizer? A pesquisadora aponta que tem uma lógica avessa à da produção de alimentos e da soberania nacional em termos de alimentação e energia. Ou seja, ao exportar esses produtos para depois comprar o que já é produzido nacionalmente de fora, o país fica mais dependente no mercado externo e, por extensão, às variações de preço que ocorrem nele.

Segundo dados da CONAB presentes no artigo, a área dedicada à produção de commodities, matéria-prima usada para a produção de outros bens e serviços, aumentou expressivamente. Entre 2002 e 2016, a área de cultivo de soja aumentou em 79%; de 2005 até 2016, a de cana de açúcar aumentou 48%. Somando essas áreas com a de cultivo de eucalipto, o estudo aponta que se aproxima a 5 vezes a área do território de Portugal.



Imagem 1: Gráficos extraídos do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.


Esse crescimento ocorre ao mesmo tempo em que a área de plantio dos itens da cesta básica diminui. O arroz diminuiu 37,5% em 13 anos; o feijão em 31%; o trigo em 22% e a mandioca, 23% em 11 anos. Por conta disso, o Brasil teve que importar esses mesmos alimentos, como se comprova nos dados do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, MAPA. Em 2015, importou-se 850 mil toneladas de arroz, 150 mil toneladas de feijão e 6 milhões de toneladas de trigo. Ok, mas por que importar alimentos seria, de modo geral, pior que comprá-los aqui? Bom, o preço pode aumentar por conta de taxas alfandegárias, transporte, logística e o fato de muitas vezes ser comercializado em moeda estrangeira (que também está sujeito às variações da taxa de câmbio e etc etc etc…). Isso impacta o preço final do produto e, portanto, quem vai ter acesso a ele.



Imagem 2: Gráfico sobre a área de cultivo de arroz ao longo do tempo extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.



Imagem 3: Gráfico sobre a área de cultivo de feijão ao longo do tempo extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.





Imagem 4: Gráficos da área, produtividade e produção de trigo e mandioca extraídos do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.






Imagem 5: Gráfico sobre a área de cultivo de alimentos ao longo do tempo, extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.


Outro tópico abordado foi o de concentração fundiária. De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, os imóveis de área entre 10.000 e 100.000 hectares, mais ou menos entre 10.000 e 100.000 campos de futebol, aumentaram de 961 em 2003 para 2962 em 2014. Então, cresceu o número de pessoas com grandes quantidades de terra, que também é relevante mencionar na sua redação.



Imagem 6: Gráfico do número e área de imóveis ao longo do tempo, extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.

No âmbito ambiental, vale mencionar os agrotóxicos. Na pesquisa, se aponta que o Brasil consumiu 20% de TODO agrotóxico comercializado mundialmente. Isso acompanha uma assimetria entre os agrotóxicos usados no Brasil e na União Europeia, que importa os produtos produzidos no país. No cultivo de café, dos 121 princípios ativos autorizados no Brasil, 30 são banidos na UE. No caso da soja, dos 150 autorizados, 35 são banidos e no cultivo de citros (laranja, limão etc) dos 166, 33 são proibidos na UE. Um deles, o glifosato, pode causar câncer em animais tratados no laboratório, segundo o relatório "IARC Monographs Volume 112: evaluation of five organophosphate insecticides and herbicides" publicado em 2015 pela Organização Mundial da Saúde, e é um potencial causador de alterações na estrutura do DNA e nas estruturas cromossômicas da célula humana. A quantidade desse composto permitido na água potável é 5.000 vezes (Sim, CINCO MIL vezes) superior ao da União Europeia. Isso tudo evidencia a diferença grande entre como a regulamentação brasileira e europeia trata agrotóxicos e a agricultura.



Gráfico 7: Gráfico do consumo de agrotóxicos em função do tempo extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.



Gráfico 8: Gráfico de vendas de glifosato em função do tempo extraído do artigo "Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia" de Larissa Mies Bombardi.

Então, com a lamentável volta do Brasil ao mapa da fome da ONU, é muito importante discutir como os alimentos são produzidos. O modo de cultivo e a distribuição estão profundamente conectados e estão, segundo o artigo, contra a soberania alimentar, aumentando a concentração de terras e, ainda por cima, utilizando agrotóxicos em grande quantidade.


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Referências:




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