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  • Foto do escritorKatrina J. Davis

Microplásticos e a ameaça invisível à saúde

Nos últimos anos, observou-se um aumento significativo do interesse do público e da comunidade científica no problema dos microplásticos. Essa questão ambiental tem se tornado cada vez mais grave e é fonte crescente de preocupação. As partículas de plástico com diâmetro menor do que 5 milímetros (mm) têm sido reconhecidas como uma ameaça à saúde humana, tanto física quanto mental - ainda mais com a descoberta da toxicidade potencial do poliestireno de partículas micro plásticas.


Existem duas principais fontes de produção de microplásticos: a primeira é a utilização de produtos manufaturados que contêm partículas de plástico, como cosméticos, esfoliantes, detergentes e protetores solares. A segunda origem é a quebra de pedaços maiores de plástico através de radiação ultravioleta (UV), abrasão mecânica e degradação biológica no meio ambiente. É importante destacar que ambos os processos são uma forte ameaça para a segurança da humanidade e do ecossistema em geral, além de contribuírem para a poluição do meio ambiente.


Informações mais específicas sobre a toxicidade de microplásticos em humanos é limitada. Pensando nessa escassez de pesquisas na área, cientistas da Universidade de Nanjing, na China, utilizaram microplásticos de poliestireno fluorescentes e puros (PS-MPs) com dois diâmetros (5μm e 20μm- μm = micrómetro) para investigar a distribuição, acúmulo e risco para a saúde específica dos tecidos dos camundongos. Os resultados do estudo indicaram que essas partículas têm potencial para acumular no fígado, rins e intestino - mas a quantidade depende fortemente do tamanho do fragmento e de suas características físico-químicas. Somado a isso, análises de múltiplos biomarcadores químicos e perfis metabólicos sugeriram que a exposição a microplásticos induziu distúrbios do metabolismo energético e lipídico, bem como estresse.


Além disso, estudos feitos por uma Universidade na Dinamarca sobre a quantidade de plástico ingerida diariamente por seres humanos, revelaram uma alarmante quantidade de 16,2 bits de microplásticos por hora - quantidade que, acumulada em uma semana, é o equivalente a um cartão de crédito em plástico.


Recentemente, inclusive, médicos chineses identificaram partículas de microplásticos no coração de pacientes em cirurgias cardíacas - que foi, até agora, a parte mais profunda do corpo humano em que o material foi encontrado. Segundo os pesquisadores e médicos da Universidade de Beijing, nem todas as amostras de tecidos cardíacos apresentavam partículas de plástico, porém, nove tipos deste material foram encontrados em cinco tecidos diferentes.


As nove amostras mais comuns de microplásticos também foram identificadas nas amostras de sangue coletadas antes e depois da cirurgia cardíaca dos pacientes. Tais partículas apresentavam diâmetros inferiores a 184 μm. A análise indicou alterações na composição dos materiais encontrados no sangue após o procedimento cirúrgico, com modificações tanto no tipo quanto na distribuição dos microplásticos presentes.


Para mais, pesquisadores da Áustria demonstraram, em experimentos, que micro e nano plásticos ingeridos atingem o cérebro de ratos - e ultrapassam a barreira hematoencefálica - em menos de 2 horas. A barreira hematoencefálica (BHE) é uma importante obstrução biológica que protege o cérebro de substâncias nocivas. Em seu estudo, os cientistas realizaram observações sobre a absorção de curto prazo em camundongos com micro/nanopartículas de poliestireno administradas por via oral (com tamanhos variados entre 0,293 a 1,14 µm). Com isso, eles foram capazes de mostrar que partículas de tamanho nanométrico - mas não partículas maiores - chegam ao cérebro apenas 2 horas após a ingestão.


Portanto, a revelação da presença de microplásticos em amostras humanas nos alerta sobre os riscos emergentes destes contaminantes. Embora minúsculas, suas proporções no organismo elevam preocupações acerca dos efeitos à saúde a longo prazo, e a produção de plásticos, crescente ao longo das últimas décadas, exacerba a poluição ambiental. Esta problemática complexa decorre de padrões de consumo insustentáveis ampliados globalmente. A emissão disseminada de plástico na natureza polui ecossistemas, comprometendo a vida selvagem e os recursos naturais dos quais dependemos. Além disso, a ingestão destas partículas na cadeia alimentar afeta nossa própria saúde de forma ainda não totalmente esclarecida.


Estas pesquisas científicas reforçam a necessidade premente de repensarmos nossa relação com os plásticos. Cabe a cada cidadão exigir mudanças e adotar hábitos mais conscientes, visando um futuro sustentável. Somente diminuindo a dependência destes materiais pode-se mitigar os impactos da produção exacerbada sobre a vida no planeta. Cabe-nos agir com sabedoria e solidariedade para garantir um ambiente saudável às gerações futuras.




Referências Bibliográficas:


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4. Environ. Sci. Technol. 2023, 57, 30, 10911–10918. Publication Date: July 13, 2023.


5. Vianello, A., Jensen, R.L., Liu, L. et al. Simulating human exposure to indoor airborne microplastics using a Breathing Thermal Manikin. Sci Rep 9, 8670 (2019).


6. Kopatz V, Wen K, Kovács T, Keimowitz AS, Pichler V, Widder J, Vethaak AD, Hollóczki O, Kenner L. Micro- and Nanoplastics Breach the Blood-Brain Barrier (BBB): Biomolecular Corona's Role Revealed. Nanomaterials (Basel). 2023 Apr 19;13(8):1404. doi: 10.3390/nano13081404. <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10141840/#B3-nanomaterials-13-01404>


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