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  • Foto do escritorEnzo Santos

Excesso de gente ou de ignorância no mundo?

Com certeza você já se deparou passando em alguma região periférica de sua cidade, ou local que estava visitando. Contudo, é bastante comum, principalmente entre as pessoas mais velhas, julgar a população local com a seguinte frase: “Olha quantos filhos tem, por isso está nestas condições.”.


Existe uma explicação plausível e bem fundamentada para esse pensamento ser comum entre os indivíduos de mais idade.


Uma teoria obsoleta


Em fevereiro de 1766,no Reino Unido, nasceu Thomas Robert Malthus. Ele que atuou profissionalmente como clérigo anglicano, economista e matemático, e, secundariamente, analisou as dinâmicas sociais. Por consequência destas pesquisas, Malthus veio a ser considerado o pai da demografia.


A obra seminal que fez jus a seu título, “Ensaio sobre o Princípio da População”, foi publicada pela primeira vez em 1798. A teoria é fundamentada na ideia central de que a população humana tem uma tendência natural a crescer de maneira exponencial, enquanto a produção de alimentos aumenta apenas de uma progressão aritmética. Em outras palavras, ele argumentou que a oferta de alimentos não seria capaz de acompanhar o rápido crescimento populacional, resultando em pressões sobre os recursos básicos e, por conseguinte, em crises de subsistência.


Figura 1: Gráfico da previsão de Malthus sobre a população humana


O momento, tido como “ponto de crise”, foi batizado pelo demógrafo como “pressão populacional”, o qual deveria ser motivo de preocupação para os monarcas da época. Por tais motivos, ele delineou duas formas de controle populacional: preventivo e positivo. O controle preventivo refere-se a práticas como o adiamento do casamento e o controle consciente da natalidade, enquanto o controle positivo envolve fatores como fome, doenças e guerras, que reduzem a população de maneira involuntária.


Embora utilizada amplamente pelo senso comum, a tese de Malthus já foi rebatida por diversos pesquisadores do ramo. Demógrafos observaram um padrão anormal na produção de alimentos, principalmente após a Revolução Industrial, que otimizou todo tipo de produção, por meio do maquinário. 


Agora mais nova, e melhor?


Já posteriormente à Revolução Industrial, uma organização com o intento de estudar as consequências ambientais deste grande evento,  O Clube de Roma, foi estabelecido em 1968 por Aurelio Peccei, empresário italiano com experiência em diversos setores, e Alexander King, cientista britânico que ocupou cargos importantes em organizações científicas internacionais. A dupla reuniu trinta dos mais renomados sociólogos, historiadores e geógrafos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).  


O Clube de Roma ganhou notoriedade em 1972 com a publicação do relatório "Limites do Crescimento". A declaração, também conhecida como Relatório Meadows, alertou sobre os limites do crescimento econômico diante dos recursos finitos do planeta e as possíveis consequências ambientais, demográficas e econômicas.


Muito provavelmente essa tese te lembrou as citações de Malthus e, por isso, essa proposição deu início ao que chamamos de “Teoria Neomalthusiana”,  responsável por influenciar o pensamento crítico da população mais prístina no que se diz sobre crescimento demográfico. O pensamento dessas pessoas, normalmente indica que a pobreza é consequência do alto índice de filhos por família , quando na verdade, os dados da atualidade, promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), provam que, na realidade, o alto índice de natalidade é consequência da pobreza.


O que nem sempre está explícito… 


Infelizmente, Malthus não poderia ter previsto os maiores adventos da humanidade: máquinas a vapor, eletricidade e a própria inteligência artificial. Contudo, a abordagem Neomalthusiana, fundada mais recentemente, tende a subestimar o papel crucial da inovação tecnológica na ampliação da produção de alimentos e no aumento da eficiência dos recursos. Avanços na agricultura, adoção de técnicas sustentáveis e práticas mais eficazes para a produção em larga escala,  têm historicamente permitido a adaptação a desafios alimentares.


Hoje, a prova de que essa filosofia é errônea está  na quantidade de alimentos desperdiçados. A produção de alimentos para os seres humanos e animais é uma das atividades que mais utiliza os recursos naturais de nosso planeta, como água, energia, minerais e, principalmente, o solo. 


Segundo as estimativas da ONU, em 2050, serão mais de 9 bilhões de pessoas. Quais as soluções para aumentar a produção? Desmatar? Exaurir o solo? Utilizar mais agrotóxicos? Produzir mais nem sempre significará, necessariamente, uma resolução para o problema. É essencial saber que as decisões que tomamos acerca da nossa alimentação causam impactos ambientais, sociais e econômicos, em escala global.



Figura 2: Alimento desperdiçado sendo dispensado


Anualmente, o mundo perde quantidades estarrecedoras de alimentos ao longo de sua cadeia produtiva, ou  seja, desde o início da produção até o consumidor final. Uma estimativa global elaborada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2011, apontou que cerca de 30% dos alimentos produzidos do mundo são perdidos ou desperdiçados a cada ano, considerando todos os elos da cadeia de valor.


Entretanto, todo este alimento perdido seria capaz de suprir um dos maiores tumores da sociedade: a fome. As pessoas em situação de insegurança alimentar,     “pessoas que não têm acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade suficiente para sua sobrevivência, segundo definição da FAO”, enfrentam uma realidade desafiadora e complexa, caracterizada pela falta de acesso consistente a alimentos nutritivos e em quantidade suficiente para atender às necessidades básicas de seus corpos. Esta condição pode ser causada por vários fatores, incluindo pobreza extrema, conflitos armados, desastres naturais, instabilidade política e desigualdades estruturais, mas também poderia ser contornada por meio da melhor distribuição dos comestíveis. Os efeitos da insegurança alimentar são vastos, afetando não apenas a saúde física, mas também o desenvolvimento cognitivo, a capacidade de aprendizado e o potencial de trabalho, que é gerado, justamente, pela desnutrição. 


Portanto, pode-se afirmar que talvez a mídia, o senso comum, o charlatanismo barato e até as grandes redes podem estar omitindo muitas informações de você, quando dizem: “O mundo excederá seu limite populacional em breve.”. É possível que o planeta não venha a superabundar demograficamente, mas, talvez, transborde de ignorância.


Referências Bibliográficas


“The limits of growth”






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