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  • Foto do escritorJúlia Rangon

A Reascensão do Nazifascismo

Nos últimos anos, assim como outros grupos sociais ao redor do mundo, o povo brasileiro tem sido exposto diariamente a termos como "neofascismo", "neonazismo" e "extrema direita". Apesar de terem sido criadas no século passado, essas ideologias não desapareceram junto com seus criadores e continuam presentes no imaginário coletivo. Tanto o fascismo quanto o nazismo têm suas raízes no intervalo entre as guerras mundiais, quando o continente europeu se recuperava da Primeira Guerra e caminhava em direção à Segunda Guerra. Nesse momento, o sistema liberal enfrentava uma grave crise, resultante da instabilidade socioeconômica pós-guerra e da devastadora Crise de 1929.


O descontentamento gerado pela crise e a descredibilização dos partidos tradicionais levaram muitos cidadãos a questionarem a situação momentânea da sociedade. Com isso, regimes de extrema esquerda, como o comunismo e o socialismo, ganharam força na Europa. Em resposta, os regimes de extrema direita surgiram em contraponto ao medo de uma revolução socialista e alimentaram uma forte corrente anticomunista em suas ideologias.


Como epicentro do fascismo, a Itália, após a Primeira Guerra Mundial, estava em uma situação precária devido às derrotas militares e à crise econômica. Dessa maneira, um grupo paramilitar conhecido como "Camisas Negras" começou a perseguir comunistas e seus partidos, ganhando apoio principalmente da elite e dos conservadores. Contudo, apesar do suporte, sua potencial magnitude política não era levada a sério. Foi somente após a Marcha sobre Roma, quando várias pessoas se conscientizaram sobre o partido, que Benito Mussolini conseguiu se tornar o Primeiro Ministro da Itália.


Com Mussolini no poder, foi estabelecida uma ditadura que intensificou a perseguição à oposição, especialmente aos socialistas e comunistas. Além disso, o primeiro-ministro italiano passou a controlar os trabalhadores proibindo greves e extinguindo todos os outros partidos italianos. Em 1926, portanto, restava apenas o Partido Nacional Fascista na política italiana.


A Alemanha, por sua vez, saiu extremamente prejudicada da Primeira Guerra Mundial, devido às condições impostas pelo Tratado de Versalhes, que atribuiu ao país a culpa total pelo conflito. Assim como a Itália, a nação também temia o avanço do comunismo. Nesse contexto, o Partido Nazista, liderado por Adolf Hitler, tentou realizar um golpe de Estado, que falhou e resultou na prisão de Hitler. Durante seu período na prisão, o líder do Partido Nazista escreveu o livro "Minha Luta", no qual expressou os ideais de mundo que foram praticados em seu movimento.


Embora o Partido Nazista já tivesse certo reconhecimento, não obteve sucesso nas eleições, sua situação só começou a melhorar após a Crise de 1929. Hitler tornou-se chanceler e instaurou uma ditadura que perseguiu ativistas e políticos de esquerda. Durante esse período, além da perseguição à esquerda, foram demitidos funcionários judeus e negros aos montes e criaram-se a polícia secreta alemã e os campos de concentração. Hitler também promulgou leis para perseguir toda e qualquer pessoa apontada como anômala à raça ariana, incluindo a esterilização forçada de pessoas consideradas doentes hereditários e implementação secreta de uma política de eliminação de deficientes.


Após a morte do presidente Paul von Hindenburg, Adolf Hitler concentrou o poder político em si mesmo, transformando a Alemanha em um país de partido único. Ele investiu fortemente em propagandas pró-nazismo e criou a juventude Hitlerista para doutrinar a mocidade alemã. Nesse sentido, assim que os nazistas chegaram ao poder, iniciou-se a perseguição aos judeus, que segregou este grupo e incentivou a denúncia deles por parte da população, muitas vezes desconhecedora do destino trágico que aguardava o grupo étnico-religioso.


Com uma decadência parecida, o Partido Nazista e o Partido Nacional Fascista acabaram no fim da Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o nome que eles carregam é símbolo de todos os crimes extremamente prejudiciais para a história da humanidade dos quais foram responsáveis. Porém, mesmo carregando uma mancha de sangue na história, suas ideias conseguiram sobreviver dentro de grupos extremistas. Assim, a vigente instabilidade e polarização do mundo reergueu essas ideias dentro dos movimentos que ficaram conhecidos como "Neofascismo" e "Neonazismo". O prefixo "neo" significa “novo”, ou seja, tratam-se de um "Novo Nazismo" e um "Novo Fascismo", que surgiram no final dos anos 1970 como movimentos contemporâneos inspirados nos ideais da extrema direita. Em outras palavras, o neonazismo é a retomada do nazismo por meio das manifestações violentas fundamentadas em preceitos ultranacionalistas e intolerantes na contemporaneidade.


Com a expansão da era da informática, é possível encontrar grupos xenofóbicos inspirados no Neonazismo. Embora muitos neonazistas claramente inspirem-se nas ideologias do século passado, eles não se consideram racistas. Por vezes, até realizam discursos contra o Nazismo, pregando a independência do novo movimento. Ainda assim, muitos grupos acreditam que o Holocausto, o genocídio em massa que matou cerca de 6 milhões de judeus, tem seu numero exagerado pela mídia. Desse modo, a ideologia Neonazista atua como um revisionismo histórico, na tentativa de resgatar, por meio da manipulação intencional dos fatos, a história do Nazismo.


Esse movimento está presente em todos os continentes, e muitos países têm percebido seu fortalecimento. O fenômeno do Neonazismo não é recente, surgiu no contexto pós-guerra e foi realizado por pessoas que sobreviveram à derrota na guerra e eram partidárias da ideologia de Hitler.


Uma característica marcante do Neonazismo é o antissemitismo, que atribui aos judeus a responsabilidade por todos os males na Alemanha e defende o combate à comunidade judaica. Além disso, a ideologia base preconizava a noção de "espaço vital", que sustentava a ideia de que um território era destinado aos alemães para a formação de um novo império. Outro elemento vital era a eugenia, que defendia a pureza racial e instigava práticas como a esterilização de pessoas consideradas "degeneradas" e a execução de pessoas com deficiências físicas e mentais. A supremacia racial também fazia parte da ideologia, com os nazistas acreditando que os germânicos, autodenominados "arianos", eram uma raça superior.


O Neofascismo, por sua vez, apresenta uma série de características próprias. Ele se manifesta através do ataque a imigrantes, da defesa de ditaduras e do autoritarismo, do nacionalismo exagerado com características xenofóbicas, do elitismo, do machismo, da homofobia e da transfobia, da organização de milícias e do culto a líderes e movimentos fascistas do passado.


Para reconhecer manifestações de grupos neonazistas, é possível observar algumas características físicas e símbolos específicos. Muitos membros raspam a cabeça, fazendo referência à vertente nazista do movimento Skinhead. Ademais, é comum que eles utilizem símbolos como "88", "Strafbar", "Nicht Strafbar", "Wolfsangel ", "Odalrune ", "Eisernes" e "Schwarze Sonne". Até a vestimenta pode ser um critério de identificação, já que muitos usam óculos escuros e botas pretas e brancas.


Imagem 1: Foto do filme "American history X"


Alguns grupos neonazistas foram inspirados pelo “Mein Kampf(“Minha Luta”) de Hitler, enquanto outros derivam de crenças semelhantes de antigas tradições nacionalistas. Lamentados pela derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, alguns abraçaram as ambições e a estrutura do Terceiro Reich e glorificaram as conquistas nazistas. Enquanto isso, outros grupos usam o neonazismo para camuflar sua agenda e ideologia antissemitas e racistas.


A instabilidade nos âmbitos econômico, social e político foi bem explorada pelos líderes deste novo fenômeno. Com destaque, encontra-se a influência sobre os jovens, visto que estes grupos se encontram presentes na Internet, com centenas de sites distribuindo material de ódio, incluindo a alegação de que a América era controlada pelo governo de ocupação sionista em Washington, DC. Historicamente, a comunidade neonazista também tem atacado comunidades socialmente vulneráveis, como a LGBTQIAPN+, e tem enfrentado uma imprevisibilidade no aumento e diminuição dos adeptos ao longo dos anos.

É dever da humanidade lembrar da violência e segregação que ocorriam na época de Hitler e Mussolini para atentar-se à situação atual, pois as ideologias extremistas vindas desses governos ainda não foram derrotadas. Suas ideias resistiram desde a queda dos governos nazifascistas e ainda estão presentes nos dias atuais, agora sob a forma de neonazismo e neofascismo. Esses movimentos se espalharam e se desenvolveram ao longo dos anos, adaptando-se a cada geração, e hoje atuam e se difundem principalmente pela esfera digital, ganhando força renovada. Nesse sentido, é difícil determinar quantas dessas organizações existem e quantos apoiadores possuem.


Com o fortalecimento anônimo na Internet, esses grupos passaram a se revelar, tomando conta das ruas e da política em alguns lugares do mundo. Para exemplificar, em Paris, o governo de Gérald Darmanin permitiu que uma marcha com 600 neonazistas ocorresse, chocando o mundo com a presença de pessoas nas ruas usando máscaras e proferindo slogans extremistas. Nos Estados Unidos, em 2017, a extrema-direita causou caos nas ruas de Charlottesville, Virgínia, ao protestar contra grupos minoritários no país. No Brasil, estudiosos afirmam que grupos neonazistas cresceram em até 270% nos últimos 3 anos, podendo reunir cerca de 10 mil pessoas.



Imagem 2: Manifestação que ocorreu na França



Além disso, a indústria musical também não está tão distante dessa ameaça. Recentemente, a cantora sul-coreana Son Chaeyoung do grupo Twice chocou seus fãs ao postar uma foto com uma blusa estampada com a suástica nazista. O baterista da banda Aurora foi substituído após ser acusado de ser nazista por realizar um gesto de supremacia branca durante um show e por ter postagens com símbolos extremistas.


Um dos argumentos utilizados para a sobrevivência destes movimentos é a liberdade de expressão. No que tange a isso, o filósofo Karl Popper, em sua teoria denominada "Paradoxo da Tolerância", questiona até que ponto devemos ser tolerantes com pessoas que têm uma visão de mundo voltada para práticas de intolerância. Ele discute a liberdade de expressão em uma sociedade democrática, ressaltando que devemos garantir o direito do indivíduo de expressar sua opinião, entretanto, nem tudo pode ser considerado um direito absoluto de expressão. Segundo Popper, "A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até mesmo aos intolerantes e não estivermos dispostos a defender a sociedade tolerante do ataque da intolerância, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância com eles."

Portanto, é fundamental combater discursos e ações que possam se enquadrar como Fascismo ou Nazismo, pois essas ideologias representam ameaças diretas aos princípios democráticos e aos direitos humanos. É dever da sociedade estar atenta e agir de forma a proteger um mundo tolerante, levando em consideração que a liberdade de expressão não pode ser utilizada como um escudo para promover ódio e violência contra determinados grupos. Quando a tolerância não cumpre seu papel, os extremistas aumentam seus crimes.


Referências bibliográficas



















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